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Falecimento do Olimpico Sr. João de Sousa

João Dias de Sousa: uma bandeira a meia haste, uma memória que se eleva

 

A formação está completa e a largada pode ser dada pelo juiz de partida. Juntou-se ao fim da tarde de hoje o olímpico João Dias de Sousa, o último a entrar na eternidade dos aveirenses que participaram nos Jogos Olímpicos de 1948, em Londres. Numa outra dimensão, aquela enorme embarcação de madeira foi pousada nas águas e ei-los que partem, numa primeira remada, todos por um e todos pelo seu Galitos, por Aveiro e Portugal, fosse nos campeonatos regionais, nacionais, ibéricos ou olímpicos. De Galo ou quinas ao peito, João Dias de Sousa pertenceu ao primeiro grupo de aveirenses que introduziu no mapa do remo a formação de rapazes da Beira-Mar que entre a década de Quarenta e Cinquenta, contra vícios e resultados feitos, implantaram um estilo diferente e belo na náutica portuguesa. Ocupando igualmente alguns lugares na direcção técnica do remo do Clube dos Galitos, João de Sousa regista-se a partir de hoje na memória do desporto porventura com aquelas palavras que o organizador dos primeiros Jogos Olímpicos da Modernidade recuperou como lema para os atletas: citius, altius, fortius (o mais rápido, o mais alto, o mais forte).

Quando, no ano 2000, se realizou em Aveiro o 4.º Congresso nacional de remo, publicou-se com muita oportunidade um opúsculo de João Dias de Sousa, Memórias de um remador olímpico. Dessa edição respigamos o essencial para obtermos, mesmo em traços largos, o seu perfil desportista e humano. Começara a prática da modalidade aos 16 anos, em 1941, logo dentro dos barcos, muito longe ainda da época dos tanques de aprendizagem e dos ergómetros. Ainda novo, com pouco mais de um ano de treino de remo pelas águas da Ria, João de Sousa foi chamado a substituir um elemento da equipa que tinha de apresentar-se a serviço militar. A responsabilidade era grande: sota-voga na formação que no ano anterior vencera o campeonato nacional de remo. É contemporânea destas provas a substituição do velhinho Tamanco, shell de madeira que nunca dera uma derrota aos Galitos, por nova embarcação e segundo o método da subscrição pública. Assim foi sempre nesta casa e com estes rapazes do remo: apresentavam-se a provas depois de um dia de trabalho, com uma direcção de amantes da sua terra e das suas águas, que abriam subscrições públicas para liquidação de despesas e transportes até aos lugares de prova. Era popular o rifão, Se vires um homem com um papel e outro de saca na mão, tu foge, que é uma subscrição! Foi a geração de João de Sousa, Albino Neto, Carlos da Benta, Felisberto Fortes, João Naia Lemos, José Naia Machado, Luís Maia Machado, Manuel Matos, Ricardo da Benta, José Velhinho, Edgar Teixeira Lopes, que definitivamente terminaram com o monopólio que existia no remo português da década de Quarenta. O Galitos impunha-se pela sua qualidade e uniformidade ao Caminhense, Naval 1.º de Maio e Fluvial Portuense que se habituaram a repartir entre si troféus e representações internacionais. Entre elas, a que rasgou oportunidades registou-se em 1942, quando o Galitos venceu o titulo nacional de seniores, garantindo-lhe o direito de remar em nome de Portugal no I Campeonato Ibérico, que venceu. Seguiram-se provas, esforços, medalhas, tristezas, troféus, chegadas triunfais à velha estação de comboios, recepções maternas na Câmara Municipal, numa época em que a cidade se mobilizava em torno do remo e cada um dos elementos das tripulações do Galitos era um orgulho pelo talento que demonstrava nas toalhas de água e na distinção com que ganhavam ou sabiam perder, granjeando o respeito dos seus adversários e do público.

João Dias de Sousa abandonara já o remo dos Galitos quando nova formação da casa constituiu a representação de Portugal nos Jogos Olímpicos de 1952, em Helsínquia. Nos anos Sessenta, com credenciais técnicas e de preparação desportiva, fez parte de um grupo de trabalho que tentou revitalizar a secção náutica do Clube, mas os tempos eram definitivamente outros: a emigração, a Guerra no Ultramar e o novo quadro económico e social não fazia regressar um tempo glorioso, quase mágico, de uma forma de remar única: vários braços, mas uma só remada, como se o barco não deslizasse sobre as águas, mas voasse magicamente.

Dias de Sousa era o decano dos olímpicos portugueses, distinção que o seu filho e o Presidente dos Galitos receberam em nome do remador, por atribuição do Comité Olímpico Português.

Nesta hora, em que flutua no ar a meia haste a bandeira dos Galitos, sobe bem alto, na memória das coisas humanas, mais um aveirense dos raros, daqueles cujo peito aberto deverá mostrar água e sal. Uma bandeira e meia haste, mas em surdina as marchas aux flambeaux que desciam a Avenida, com os nossos remadores em glória pelas vitórias na Figueira, no Porto, em Viana. Desce por um dia o pavilhão branco com o galo rubro, pelo respeito que nos merece um aveirense dos raros: daqueles que demonstram a grandeza de subtrair o seu esforço pessoal, o somam no colectivo e honram uma terra, que lhes agradece, não os esquecendo e sendo-lhes grata.

Está completa a formação olímpica de 1948, Pelo Galitos canta, canta galo, canta.

 

Nuno Gonçalo da Paula

07/12/2014 23:42

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